21 de abr de 2012

Ciência e Mito,

Rafael Forte Martil. Escrito originalmente para a disciplina "Ciências Humanas" (2010) - UFSCAR-EAD.




Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia. Todo conteúdo, ele o recebe dos mitos, para destruí-los, e ao julgá-los, ele cai na órbita do mito.
                                                                                           ADORNO e HORKHEIMER


O começo

O Homo Sapiens Sapiens pertencente ao gênero Homo, diferenciou-se das espécies predecessoras por sua inteligência pontual no uso do aparelho cerebral desenvolvido na modificação do meio para proveito próprio. A partir de algumas “descobertas”, como a do fogo, da agricultura e da criação de animais, cidades, escrita, dentre outras que sucederam marcou a hegemonia dos sapiens sobre as demais espécies, tais modificações trouxeram um desenvolvimento impar, ao menos quando se tem em referência os próprios membros da espécie que ao invés de lutar contra adversidades de forma desregrada criou mecanismos que maximizaram a utilização do meio para proveito da espécie, com o surgimento dos primeiros agrupamentos humanos. Logo, uns se apropriaram das terras que se mostravam mais apropriadas para extração e para agricultura, criando assim a desigualdade e posteriormente a exploração que ainda marcam grande parte das relações humanas.

Grande parte das antigas civilizações, como a helênica se erigiu e atribuiu sentido existência a partir de mitos que destacavam supremacia do homem em relação aos demais seres. Posteriormente constituíram as religiões, que supriram a necessidade de explicar de onde viemos e para onde vamos, mas que segundo Freud[1] pode ser encarada como um delírio coletivo, fruto da necessidade de estabelecer certezas alheando-se da realidade percebida através dos sentidos.

A partir do período que denominamos Baixa Idade Média houve uma crescente valorização da experiência. Para exemplificar a mudança podemos citar o movimento Renascentista, que resignificou várias experiências e a própria relação do homem com Deus e com o meio. Descarte sistematizou como deveria ser a relação com os objetos que passam a ser racionalmente analisados, com o advento do método científico. Posteriormente houve um grande esforço da sociedade no sentido de torna-se racional, aqui podemos citar o movimento Iluminista, que propagava o uso da razão na construção de uma sociedade desenvolvida; Outro movimento que disseminou a ciência como mola mestra da sociedade foi o Positivismo, que paralelo ao progresso científico da época buscava um entendimento científico dos objetos, havendo uma separação clara entre sujeito e objeto, sendo a ciência a grande responsável pelo desenvolvimento da civilização.



Ciência e Sociedade

O desenvolvimento da ciência se deu de forma acelerada nos últimos séculos. As possibilidade de modificação do meio multiplicaram-se. O homem é capaz de produzir mais do que em qualquer outra época, houve desenvolvimento significativo na tecnologia como jamais visto, todavia problemas e conflitos nas relações humanas não foram solucionados com a mesma perspicácia que o homem modifica o meio. Ao contrário diversos conflitos no decorrer do século passado demonstraram que a tecnologia se usada sem critérios pode ser catastrófica, já que confere ao homem uma capacidade de destruição potencial do planeta.

As Ciências Humanas diferencia-se das demais pelo fato de analisar relações entre os humanos, sendo estas não ajustáveis ao estatuto de ciências exatas. Nesse contexto autores como Marx colocaram a questão da Ontologia baseada na relação dos homens com outros homens; assim a existência teria sentido a partir das relações estabelecidas com os outros, na medida em que agem coletivamente. Além de análises como as de Capra citado no módulo anterior, que propõe uma visão global da ciência já que ela modifica consideravelmente o meio a ponto de causar sua degradação e até destruição.

Lucien Goldman em seu livro Ciência Humanas e Filosofia propõe uma metodologia em Ciências Humanas que considera a especificidade do homem enquanto sujeito e objeto, o próprio sujeito sofre influencias do meio, da sociedade das ideologias, havendo a necessidade de uma análise crítica dos diversos elementos que constituem a realidade.



O Fim

A ciência não pode ser encarada como religião ou mito, já que estes não possuem um compromisso com a razão ou com relações causais perceptíveis; explicam questões que a ciência não explica, mesmo que seguindo um raciocínio sui generis, que aponta para a verdade sem comprová-la de forma lógica.

O que cabe e o que esperar das Ciências? Espera-se que ela em linhas gerais facilite a vida do homem, que parta do pressuposto que as verdades são relativas e peculiares a cada contexto específico, que os homens existem em relação aos outros homens e ao meio e que relações mecanicistas não explicam as relações humanas.

A Ciência transformada em mito pode significar a transformação de verdades transitórias em universais. O uso da ciência sem um cunho humanista pode levar a conseqüências catastróficas para a humanidade, como a destruição do planeta e uma coisificação das relações humanas.


[1]Tais considerações podem ser encontradas na obra publica por Sigmund Freud em 1930 denominada O mal-estar na civilização.



Referências Bibliográficas:

CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo,1982. Pensamento Cultrix E.

DESCARTES, R. Discurso do Método. São Paulo, 1979: Abril Cultural.

FRANCELIN, Marivalde Moacir. Ciência, senso comum e revoluções científicas: ressonâncias e paradoxos. Ci. Inf.,  Brasília,  v. 33,  n. 3, Dec.  2004 .  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S01009652004000300004&lng=en&nrm=iso>. Acessado no dia  28 de Novembro de  2009.

FRAGA, Paulo Denisar. Mito e Ciência: A confluência turva do esclarecimento. Revista Espaço Acadêmico;nº 72 maio/2007. Disponível em:http://www.espacoacademico.com.br/072/72fraga.htm; acessado em 10/12/2009.

FREUD, Sigmund. Os Pensadores. São Paulo, 1978: Abril Cultural.

FURLAN, Reinaldo. Uma revisão/discussão sobre a filosofia da ciência. Paidéia,  Ribeirão Preto,  v. 12,  n. 24,   2002 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2002000300002&lng=en&nrm=iso>. Acessado no dia  27  Novembro  2009. 


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